Pais participativos estão em ascensão

Os pais ativos estão em alta, mas ainda são poucos. Homens dependem não só do trabalho, mas das próprias mulheres para conquistar espaço

Carla Hosoi, especial para o iG São Paulo |

Arquivo pessoal
César Teixeira: "minha participação é fundamental"
Todo mundo diz e pouca gente discorda: mãe só tem uma. Mas e os pais? Se houve um tempo favorável a uma divisão de papéis bem definidos dentro de casa, com a mãe educadora e cuidadora do lar e o pai provedor, hoje delineia-se um quadro totalmente diferente, sem funções determinadas para um ou para outro. “O que realmente há é uma grande confusão”, resume Rubens Maciel, psiquiatra e especialista em paternidade.

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Sem muitas referências, equilibrar pesos e medidas nos cuidados dos filhos é um desafio para muitas famílias. “Hoje os papéis são mais elásticos e flexíveis, mas existe também uma carência de apoio e informações para os pais, já que a oferta de estudos, experiências e até mesmo de literatura em relação ao universo masculino neste novo ambiente familiar é irrelevante, se comparada ao que existe para as mães”, completa Rubens.

Levar o filho ao médico, negociar trabalhar de casa quando o filho está doente e comparecer às reuniões escolares não são mais encargos apenas da maternidade. “Eu sou mais disponível que a mãe da minha filha. Alguns dias atrás consegui assistir uma apresentação na escola de dança no meio da tarde, por exemplo. Tenho um horário de trabalho bem flexível e faço questão de estar muito presente na vida dela. Ela mesma me chama quando tem qualquer emergência”, diz Luis Castro, gestor de novos negócios de um agência de comunicação, pai de uma menina de 11 anos.

Conciliar os horários de trabalho com as demandas familiares, principalmente para os pais inseridos em ambientes corporativistas, depende também do suporte oferecido pelas próprias empresas. A tradicional Dupont implementou a política do horário flexível ainda nos anos 90 e figura em vários indicadores externos como uma das 10 melhores empresas brasileiras para se trabalhar. “Buscamos um ambiente onde as pessoas possam trabalhar com mais vontade e felicidade. Isso inclui usufruir de um horário flexível caso necessitem de mais tempo para se dedicar aos estudos, para cuidar dos pais e também dos filhos”, diz a diretora de Recursos Humanos Cláudia Pohlmann.

“Eu já precisei abandonar um jantar com executivos americanos porque meu filho estava doente. Ninguém me contrariou ou fez qualquer ressalva por isso. Pelo contrário, fui totalmente apoiado, inclusive pelo meu próprio chefe”, diz Bruno Bezerra, responsável por uma das divisões de marketing da Dupont. Bruno é pai de um menino de 11 meses e divide todos os cuidados com o filho, em casa ou fora dela. “Faço tudo: dou banho, troco fralda, levo ao pediatra, esquento mamadeira e se precisar ficar com ele em casa por algum motivo, negocio um homeoffice (trabalhar de casa). A paternidade é um compromisso para a vida toda e não vejo isso como obrigação, mas sim um prazer enorme”, explica.

Para César Teixeira, do departamento de criação do canal infanto-juvenil Nickelodeon, acordar para acudir o filho de 3 anos no meio da noite é uma função dividida de igual para igual com sua esposa. “Eu acordo tanto quanto ela”, diz. “Minha participação nos cuidados diários com meu filho é fundamental. Acho totalmente retrógrada a ideia de falta de flexibilidade e liberdade no trabalho, principalmente quando o assunto em questão é a família”, argumenta Teixeira, que oferece a mesma liberdade recebida no trabalho dentro de casa. “Quando o filho da minha babá está doente, eu fico em casa, com meu filho, para ela poder ficar na casa dela e cuidar do filho dela. Dei esse espaço para ela também, e assim ela se sente apoiada e mais feliz em estar do nosso lado”, justifica.

Modelo em ascensão

Atuante, participativo, apoiado por seus empregadores e sobretudo mais disponível. Este é um modelo de pai em ascensão, mas ainda não reflete uma transformação numericamente expressiva, segundo Ana Maria Rossi, presidente da ISMA-BR, associação internacional dedicada ao estudo e tratamento do estresse. Uma pesquisa realizada com 1365 pessoas em Porto Alegre, Belém e São Paulo identificou que apenas 118 homens se enquadravam nesse “novo modelo”, apresentando um maior envolvimento com a instituição familiar. “Não dá nem 10%, o que indica uma mudança ainda muito tímida nesse sentido”, afirma a psicóloga.

O exercício de uma paternidade mais ativa e presente em todos os momentos da vida do filho esbarra em questões delicadas: a dificuldade de muitas mulheres em verbalizar o pedido de ajuda e em delegar certos cuidados ao pai, o estereótipo da mulher mais responsável e, portanto, mais favorecida neste sentido, e o fato de ainda haver uma conscientização “muito velada” desse novo pai e homem contemporâneo. “Empregadores e empregados, mulher e homem, pai e mãe: muitos paradigmas precisam ser mudados para haver uma transformação significativa e benéfica, sobretudo para os filhos”, afirma Ana Maria Rossi.

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Segundo Rodrigo Ganem, diretor de marketing de uma empresa de comunicação, essa “percepção de igualdade” precisa ser bem mais difundida. Pai de dois filhos de dois casamentos diferentes, Rodrigo conseguiu na Justiça a guarda de seu menino, hoje com 16 anos, que mora com ele desde os dois. “Ao longo desse tempo todo, fiz tudo sozinho. Levar ao médico, ao dentista, brigar com professor na escola, comprar material, ir à reunião. Sou a maior prova de que os pais têm capacidade de cuidar dos filhos, tanto quanto as mulheres”, diz. Para ele, o favorecimento do ideal da maternidade em detrimento dos pais não pode permanecer como um padrão aceitável pela sociedade. “O homem também tem que cuidar, participar das decisões, estar junto. Pai também só tem um”, finaliza.

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