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Os "pais suecos" do Brasil

Eles são brasileiros, mas dividem todas as responsabilidades com as mães. Ou são até mais presentes que elas

Renata Losso, especial para o iG São Paulo |

Talvez você possa contar nos dedos – ou nem contar – o número de vezes que viu um pai levando três filhos pequenos para passear sem ter a esposa ao lado. Mas na vida do administrador de empresas Augusto Eduardo Ferraz, de 39 anos, esta é uma cena comum. “Eu saio com eles, levo no pediatra, faço tudo porque quero e gosto. Mas quem vê deve pensar: ‘Nossa, como ele dá conta?’”, imagina ele. Porém, para alguns pais, este papel está cada vez mais atual.

Edu Cesar/Fotoarena
Augusto Ferraz, pai de Hugo, Breno e Eduardo: "devem pensar como eu dou conta"
“O nascimento do meu primeiro filho, o Hugo, fez com que eu me tornasse uma nova pessoa. Jamais me omitiria de fazer algo por ele; eu preciso ser um pai presente”, conta Augusto, revelando que assume o papel que, na maioria das vezes, é exercido pelas mães. Levantar de madrugada, trocar fralda, dar mamadeira e levar para a escola são algumas das atitudes que, na casa de Ferraz, na maioria das vezes é tomada por ele. “Hoje temos que fazer um pouco de tudo, não é só responsabilidade da mulher: temos que ser flex”, brinca.

Seguir o modelo de vida dos pais suecos – que, assim como Ferraz, cuidam dos filhos tanto ou mais que as mulheres – é uma responsabilidade que, segundo a terapeuta familiar Maria Cecília Gasparian, membro da Associação de Terapia Familiar de São Paulo, começou a ser introduzida desde a década de 50, com movimentos que reivindicavam os direitos da mulher. “A luta das mulheres pela igualdade com o masculino foi, gradativamente, influenciando este movimento do homem de assumir um lado da parceria na criação dos filhos”, revela.

A inserção das mulheres no mercado de trabalho, também contribuiu para que os homens começassem a tomar mais partido pelos filhos. “Minha esposa é professora universitária e tem três empregos, então eu supro as necessidades deles por ter uma flexibilidade maior de horário e por ter um escritório perto de casa”, diz Augusto. Segundo o empresário, com o nascimento dos gêmeos Breno e Eduardo, hoje com quase dois anos, ela acabou largando um dos empregos para passar mais tempo com os três filhos: “Ela ficou um pouco insegura a princípio, mas hoje diz que não trocaria por nada”.

Pais maternos

Fotoarena
Wagner coloca Ana Carolina e Victor à frente de seu dia a dia
Assim como Augusto, o microempresário Wagner Roim, de 39 anos, também coloca os filhos à frente de seu dia a dia. Quando nasceu Ana Carolina, a primeira filha, nem ele, nem a esposa – a bancária Rosana Roim, de 37 anos – tinham muita mobilidade de horário. Por isso, faziam tudo juntos, desde levá-la ao pediatra até buscá-la diariamente na escola. “Mas hoje, como conduzo um escritório, acabo cuidando mais das necessidades dela e do meu segundo filho, o Victor, de 10 meses”, conta.

“Antigamente eu dizia para a minha mãe que, se eu fosse mulher, teria tido filho mais jovem, mas não dava para fazer produção independente por ser homem”, ri. Devoto aos filhos, Wagner reveza com a mulher as responsabilidades da mamadeira e da hora do banho das crianças desde o nascimento de Ana Carolina, há quase sete anos. “Às vezes eu até brigava com ele por pegar tanto no meu pé na hora de cuidar das crianças”, conta Rosana, contrariando o senso comum de que, quem costuma fazer isso, é a mãe.

Mesmo assim, Rosana afirma a satisfação que possui por ter um marido que não vê problema em cuidar das crianças, sem o lado ou os hábitos machistas que muitos homens guardam, às vezes sem perceber: “Uma vez até me disseram: ‘Seu marido leva as crianças para a escola, busca, te leva ao trabalho e ainda cozinha de domingo? Preserve bem porque outro igual você não encontra!’”, revela, contente.

Fotoarena
Detalhe da tatuagem na perna de Wagner: "hoje homens e mulheres estão todos no mesmo barco"
Segundo Wagner, essa disposição pelos filhos vem de família: “Meu pai e os irmãos dele cresceram numa casa em que a minha avó que fazia tudo; meu avô era muito sério e rígido, então hoje todos eles cozinham e são dedicados aos filhos porque pensavam que, se não ajudassem a mãe deles, ela iria enlouquecer a qualquer momento”. Wagner conta que vê tudo muito diferente hoje: “Os homens estão tendo que participar; hoje está todo mundo no mesmo barco, crescendo e trabalhando”.

Flexibilidade de papéis

Para a psicanalista e socióloga Nilda Jock, todo este envolvimento dos homens é uma questão de evolução. “O papel da mulher é muito diferente do que o exercido 50 anos atrás. As novas formas de relacionamento familiar ocorrem pela necessidade mesmo”, explica. Antes vistos como apenas uma autoridade – e muitas vezes distante dos filhos – os pais agora começam a reconhecer a participação que precisam ter dentro de casa.

O profissional de teatro Luiz Grasseschi, de 33 anos, confessa que, quando soube da gravidez da esposa, ficou um pouco inseguro por achar que seria um bicho de sete cabeças criar a filha Alice, hoje com quase dois anos de idade. “Mas com a segurança que a minha mulher me passou, fui vendo que não era bem assim e percebi que é um preconceito dizerem que é a mãe mesmo que conhece bem a criança: o pai também conhece, a convivência faz isso”, conta.

Hoje, com homens e mulheres sem papéis fixos dentro de casa, Luiz diz que em pouco tempo já estava dominando todas as funções que tinha que realizar – já que, no primeiro ano da filha, ficava o tempo inteiro com ela enquanto a mãe trabalhava no período da manhã e da tarde. “No começo eu ligava pra ela de dez em dez minutos, mas foi um processo bem natural o conhecimento que passei a ter da Alice. Hoje, vira e mexe, ela prefere que eu dê banho nela, não a mãe”, conta Luiz.

Mamães do tempo livre

Edu Cesar/Fotoarena
Luiz, pai de Alice: insegurança passou com a convivência
Mas isso não quer dizer que haja ciúmes por parte da mãe. Diante deste novo homem, já adaptado, é vez das mulheres se adaptarem. De acordo com Gasparian, aprender a lidar com a paternidade presente é uma necessidade da mulher atual: “Antigamente o homem era excluído de ser o ‘cuidador’, e a mulher era exclusiva, mas deixar que os filhos sejam educados da forma masculina também é positivo”.

Naturalmente mais envolvidos na convivência com o pai, os filhos muitas vezes acabam tendo preferência pela presença dele. Mas isso tampouco quer dizer que a mãe não seja querida. Quando os filhos preferem o colo do pai ao dela, a bancária Rosana brinca que só serviu para colocar os filhos no mundo. Mas Wagner confirma que o segredo é cultivar a proximidade: “Eu sempre falo para ela brincar mais com eles do que eu no tempo livre, para manter este contato”.

Rosana, que infelizmente não pode estar tão presente quanto o marido na vida dos filhos, confia a Wagner a responsabilidade de cuidá-los enquanto trabalha. Já pelo lado masculino, Wagner se sente privilegiado e não tem reclamações: “Todos os dias eu a busco no trabalho, as crianças na escola, e jantamos juntos. Tenho muita sorte por isso”.

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